Open Finance no Brasil: bilhões de dados por mês e o desafio da velocidade regulatória

Se o Open Finance já processa 11,6 bilhões de chamadas de API por mês, como disputar espaço em um mercado que se atualiza em segundos quando seu monitoramento regulatório ainda demora dias para responder?

Pedro Carvalho Analista político, Arko Advice

O Open Finance brasileiro deixou de ser promessa para se tornar uma das maiores infraestruturas de dados financeiros do mundo. Em 2024, o sistema registrou 11,6 bilhões de chamadas de API por mês, mais que o dobro do ano anterior, segundo dados da InfoMoney. A velocidade impressiona, mas o que realmente importa é o que ela significa: um setor que já opera em tempo real e em escala massiva.

Até maio de 2025, segundo o Finsiders Brasil, 55 milhões de clientes — um terço da população bancarizada — já haviam autorizado o compartilhamento de informações financeiras. Isso não é só adesão em larga escala; é uma mudança estrutural na forma como circulam dados de crédito, investimentos, câmbio, seguros e pagamentos.

O crescimento foi acelerado: entre outubro de 2023 e outubro de 2024, o número de consentimentos ativos saltou de 27 milhões para 37 milhões, um avanço de 35%. O tráfego acompanhou esse movimento: 4 bilhões de chamadas de API por semana, consolidando um ecossistema onde informação circula em velocidade sem precedentes.

A amplitude do modelo brasileiro, reconhecida pelo próprio Banco Central, o torna ainda mais complexo. Ao contrário de mercados pioneiros como Reino Unido e União Europeia, o Brasil desenhou desde o início um Open Finance que integra dados de múltiplos segmentos e se conecta diretamente ao Pix. Essa característica expande os casos de uso, mas também exige monitoramento contínuo de padrões técnicos e normativos — qualquer mudança pode afetar modelos de negócio inteiros.

A análise de uso reforça o tamanho do desafio. Segundo a InfoMoney, 95% dos consentimentos vêm de pessoas físicas, e a concentração é clara: Nubank responde por 47% do tráfego, seguido de Mercado Pago (12%) e Santander (9%). Três conglomerados concentram quase 70% das chamadas, mas bancos tradicionais seguem ativos e disputando espaço. Em 2024, as categorias mais acessadas foram contas correntes (44,5% das chamadas) e cartões de crédito (21,6%), enquanto investimentos deram um salto exponencial — de 22 milhões para 1,47 bilhão de chamadas em apenas um ano.

Nesse cenário, a lição é direta. Mais dados significam maior velocidade, mas também maior risco de obsolescência. A vantagem competitiva não está apenas em ter acesso à informação, mas em ser capaz de monitorar, analisar e agir antes que ela perca relevância. No sistema financeiro — e em qualquer setor regulado — a cadência da informação já define quem consegue liderar.

Fontes: Finsiders Brasil, InfoMoney, Banco Central do Brasil.

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